1) Se o povo não se organiza, alguém vai organizar

No texto “A tirania das organizações sem estrutura”, de 1970, a militante feminista Jo Freeman problematiza a falta de estruturas formais nos movimentos de mulheres da época. [ref. 1]

Segundo ela, grupos sem uma estrutura formal podem servir bem para aproximar pessoas e para promover debates de conscientização, mas a informalidade vira um problema quando o grupo pretende se expandir, quando pretende ir além da “conversa” e partir para a prática social.

Ela argumenta que não existem grupos humanos completamente “sem estrutura”. Quando o grupo não constrói uma estrutura formal, ele acaba regido por estruturas informais definidas por uma “elite” interna, um grupo minoritário que detém o poder.

Para que todas as pessoas tenham a oportunidade de se envolver num dado grupo e participar de suas atividades, é preciso que a estrutura seja explícita e não implícita. As regras de deliberação devem ser abertas e disponíveis a todas e isso só pode acontecer se forem formalizadas.

Organização não é um tema que a gente nasce sabendo, como um “instinto”, e um grupo dificilmente será bem estruturado “com o tempo”, de forma espontânea. Poucas organizações populares formalizam suas regras de deliberação e as mantêm abertas para todas as participantes. Isso dificulta as tomadas de decisão, o ingresso de novas pessoas e o desenvolvimento de suas práticas sociais. Assim, elas não adquirem relevância política e não acumulam forças para intervir na realidade.

Na luta de classes é importante fazer análise de conjuntura, análise estrutural, conhecer uma diversidade de estratégias e táticas… mas, para aplicar esse conhecimento, é preciso antes se organizar. Mesmo com poucas participantes uma organização já pode ter lutas vitoriosas, mas essas lutas só poderão crescer se, depois das vitórias (sejam elas grandes ou pequenas), a organização tiver as portas abertas para novas pessoas. E, antes de abrir as portas, é preciso arrumar a casa.

Se não nos organizamos, os frutos da nossa luta continuarão sendo cooptados por aqueles setores da sociedade que estão mais organizados.

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Essa cartilha apresenta, primeiro, um modelo simples de estrutura para organizações populares autônomas. Esse modelo pode e deve ser adaptado de acordo com a realidade e as necessidades de cada grupo. Em seguida, são feitas recomendações sobre como preparar e mediar uma reunião e, no final, alguns caminhos para começar o trabalho.

O povo não é inerte por natureza, mas sim quando lhe faltam referências. Esse material foi produzido para auxiliar os grupos que buscam se estruturar de forma popular e autônoma, sem cair em hierarquias internas nem em relações de dependência com grupos externos. Se servir a essa função, terá cumprido o objetivo.

Quem tiver igual ou melhor pensamento, vai, tira quantas cópias da cartilha quanto achar necessário – e junta a companheirada!

Salve, povo que luta!